domingo, 20 de agosto de 2017

Rumo à Surdez: Discografias Comentadas - Queens of The Stone Age (Parte 1)



Olá, pessoal.

Tenho três bandas que considero minhas favoritas, uma é a britânica Arctic Monkeys, da qual a discografia foi uma das minhas primeiras postagens. Um pouco depois escrevi sobre Foo Fighters, e na época disse ser minha banda favorita, mas atualmente mudei de ideia para outra banda que também já gostava, mas que após pensar muito sobre o assunto, cheguei a conclusão que é a definitiva, essa banda é Queens of The Stone Age.

Aproveitando o lançamento do novo álbum Villains, que acontecerá dia 25 deste mês, decidi escrever sobre a discografia da banda e terminar com a resenha do novo disco.

Vinda de Palm Desert na Califórnia, Queens of The Stone Age foi fundada por Josh Homme, que até então tinha sido o guitarrista das bandas Kyuss e Screaming Trees, em paralelo ao projeto The Desert Sessions, que pegava vários artistas para gravar músicas experimentais.

A banda Kyuss já tinha certo reconhecimento, com riffs pesados e de clima setentista, em um gênero que ficou conhecido como Stoner Rock/Desert Rock, com músicas que refletem bem o cenário em que foram gravadas.




O Queens of The Stone Age (que eu chamarei de QoTSA daqui em diante para não escrever o nome todo) seria como uma sucessora espiritual do Kyuss, só que tentando pegar um público maior, o que acabou dando bem certo.

 Foi lançado um EP em 1997 chamado Kyuss/Queens of The Stone Age que é uma mistura das duas bandas, o EP tem seis faixas, as três primeiras são do Kyuss, e as três últimas são do QoTSA, uma delas é  "If Only Everything", que foi regravada no primeiro álbum da banda posteriormente.


Então em 22 de setembro de 1998, o álbum homônimo foi lançado, com Josh Homme na guitarra, baixo e vocal e Alfredo Hernández na bateria, com várias participações especiais.

Queens of The Stone Age (1998)
Duração: 46:27


Regular John abre o disco mostrando exatamente o tipo de som que ouviremos pelo resto da duração, é uma ótima introdução ao estilo da banda.


Segue com Avon, que tem um riff bem reminiscente do Kyuss e a regravação de If Only, dessa vez com uma produção bem melhor e rebuscada.


You Would Know é uma viagem de ácido com um som robótico e mecânico, How to Handle a Rope tem um ótimo riff que é o mais divertido do disco, apesar da letra ser um tanto sombria (se trata de suicídio).


Mexicola e Hispanic Impressions são bem pesadas e mantém o ritmo de How to Handle a Rope, e então finalmente chegamos a minha favorita do álbum, You Can't Quit Me, Baby é espetacular, com um dos riffs de baixo mais estilosos que já ouvi, um som psicodélico pelo restante da faixa e novamente uma letra sombria, com um trecho que eu costumo repetir em loop (You're solid gold, I see you in hell) toda vez que toca.


Como se o baixo da música anterior já não fosse bom o suficiente, começa Give The Mule What He Wants com outro riff memorável.


O álbum termina com I Was a Teenage Hand Model, que é a única música que está um pouco abaixo do resto, a faixa é mais lenta e nunca cresce, não é um bom desfecho para o álbum, se encaixaria melhor na metade, talvez entre Mexicola e Hispanic Impressions.

Faixas:
1- Regular John
2- Avon
3- If Only
4- Walkin' on the Sidewalks
5- You Would Know
6- How to Handle a Rope
7 - Mexicola
8- Hispanic Impressions
9- You Can't Quit Me, Baby
10- Give the Mule what He Wants
11- I Was a Teenage Hand Model

Queens of The Stone Age é um debut exemplar, que honra o som pesado do Kyuss e apresenta os ritmos da nova banda, é uma ótima transição de estilos, mas ainda não parece ser algo próprio, isso é algo que seria aperfeiçoado no próximo álbum da banda.

Agora algumas músicas que ficaram fora do álbum e merecem uma ouvida:

Spiders and Vinegaroons



Uma ótima e atmosférica faixa instrumental, originalmente do EP Kyuss/Queens of The Stone Age que foi colocada no relançamento de 2011 do álbum.

The Bronze



These Aren't the Droids You're Looking For



Outra instrumental, deliberadamente fora de tom e um tanto irritante, vale pela menção do título, que é uma referência a Star Wars, "esses não são os dróides que você procura".



Rated R (2000)
Duração: 42:10



O primeiro disco não foi exatamente um sucesso, pois a grande maioria de quem comprou já era fã de outros trabalhos passados de Homme, foi com Rated R, lançado em 6 de junho de 2000, que a banda fez um sucesso considerável, dessa vez chamando a atenção do grande público e se tornando uma das maiores promessas do rock moderno.

O baixista do Kyuss Nick Olivieri começou a tocar na banda durante a turnê do primeiro disco, e se tornou o baixista da banda nesse álbum, Mark Lanegan do Screaming Trees também participou nos vocais, Rated R contém várias participações especiais, apenas Olivieri e Homme estão em todas as faixas.

Feel Good Hit of the Summer começa o álbum de forma energética, a letra é bem polêmica, simplesmente sendo uma lista de drogas repetida várias vezes (nicotina, valium, vicodine, marijuana ecstasy, álcool e cocaína), apesar que Homme disse ser apenas uma piada, e originalmente seria a última faixa,  Rob Halford do Judas Priest faz parte dos backing vocals, mas apenas no último verso (tanto que eu nunca notei que era ele até pesquisar informações para essa postagem).

Pessoalmente eu acho que Feel Good Hit of The Summer é um comentário sobre como todas as músicas populares são feitas (à base de muitas drogas), o próprio titulo faz uma brincadeira com essa ideia, sendo o "hit do verão", além disso também é uma brincadeira ao gênero Stoner Rock, (Stoner é uma gíria para drogado) do qual a banda foi rotulada, Homme sempre disse achar esse nome idiota, e intitulou o estilo da banda como "Robot Rock".

Muitas rádios recusaram tocar a música por conta do conteúdo sobre drogas, mas ainda foi um sucesso considerável, muita por conta dessa polêmica mesmo.


Apesar de toda a discussão de Hit of the Summer, o verdadeiro grande hit do álbum foi a segunda faixa The Lost Art of Keeping a Secret, eu gosto muito do começo com aquele som de clima de mistério, o refrão é bem legal também, é uma bom pedaço de pop rock, mas não é minha favorita do disco nem de longe.

O clipe passou bastante em canais de música na época, e foi um dos primeiros singles famosos da banda.


Leg of Lamb tem um som bem interessante e diferente das duas primeiras faixas, sendo mais estranha e experimental, Auto Pilot é ótima e conta com os vocais de Nick Olivieri, o baixista geralmente canta nas faixas mais agressivas, então é surpreendente ouvi-lo numa mais leve, e funciona muito bem.




Better Living Through Chemistry é uma ótima peça experimental e conta com algum dos melhores solos de guitarra da história da banda, novamente tocando no assunto de narcóticos que permeia todo o álbum, dessa vez muito mais séria que Hit of the Summer, falando sobre os efeitos negativos.



Monsters in The Parasol volta ao estilo mais pop, e apesar de ter o melhor clipe entre os vídeos lançados, é minha menos favorita do álbum, não é nem de longe uma música ruim, mas ela nunca me pegou do mesmo jeito que as outras, o clipe tem bastante humor negro, algo que viraria padrão nos vídeos da banda.


Quick and to the Pointless volta com Nick Olivieri, dessa vez com vocais agressivos e um som bem punk, Wendy Rae Fowler da banda We Fell to Earth participa nos backing vocals, é uma faixa bem rápida, não passa nem de 2 minutos e serve mais como um intervalo, até me pergunto se o título não é uma brincadeira com isso (a tradução é rápido e para o inútil).

In the Fade é minha favorita do disco, tem um dos melhores trabalhos vocais que já ouvi, com a voz forte de Mark Lanegan em uma faixa bem triste, todos os instrumentos estão perfeitos aqui (principalmente o baixo), o refrão é incrível.

 
"Live till you die..."

Feel good hit of the summer toca novamente em reprise por uns 20 segundos, e Tension Head continua com a agressividade de Olivieri nos vocais e um ótimo trabalho de guitarra de Homme, Lighting Song é uma bela peça instrumental de violão.

Terminando o álbum temos I Think I Lost My Headache, que é uma representação do que acontece após usar todas as drogas da primeira faixa, é uma faixa bem sombria e um pouco assustadora, com um final feito para dar a dor de cabeça citada no título, é uma ótima conclusão para o disco no geral.



"It's all my head, i know
or so they tell me so
Until my head explodes, into my head it goes..."

Rated R foi um álbum revolucionário não somente para a banda, mas para todo cenário do rock dos anos 2000, é considerado por muitos críticos um dos melhores discos da década (o melhor para alguns), e catapultou o sucesso da banda de uma vez só, tanto que foram chamados para o Rock in Rio 2001 logo depois, tamanho o sucesso que tinham feito com Rated R, e que causou um dos casos mais engraçados e bizarros na história do Rock in Rio, quando Nick Olivieri tocou nu durante o show.

Faixas:

1. Feel Good Hit of The Summer
2. The Lost Art of Keeping a Secret
3. Leg of Lamb
4. Auto Pilot
5. Better Living Through Chemistry
6. Monster in The Parasol
7. Quick and To The Pointless
8. In The Fade
9. Feel Good Hit of The Summer (Reprise)
10. Tension Head
11. Lightning Song
12. I Think I Lost My Headache

Agora algumas músicas que ficaram fora do álbum e merecem uma ouvida:

Never Say Never




Um ótimo cover de Romeo Void, com uma repaginada mais rock n' roll.

Ode to Clarissa



Uma faixa bem divertida de Nick Olivieri.


Infinity




Uma das melhores da banda, feita para a trilha sonora do terrível filme Heavy Metal 2000.

Para não deixar essa postagem grande demais e carregada de vídeos, continuarei em mais duas partes, no próximo falarei sobre Songs for The Deaf e Lullabies to Paralyze.

Até mais!
  

domingo, 13 de agosto de 2017

Resenhas: Dunkirk, Em Ritmo de Fuga e Planeta dos Macacos: A Guerra

Olá, pessoal!

Eu sinto como se não escrevesse nada há uns 4 meses, o que de fato é o que aconteceu, me lembro de ter escrito em alguma postagem em janeiro "que tentaria postar regularmente no blog", o que eu já quebrei completamente, por várias razões pessoais, mas agora voltei pra algumas postagens novas, tenho várias ideias para os próximos meses e vou focar mais aqui.

Com isso dito, assisti três filmes dos quais estava esperando bastante nesse ano, o primeiro foi Dunkirk, seguido de Em Ritmo de Fuga e por último o terceiro Planeta dos Macacos (dessa nova trilogia).

Então, sem muitas delongas, vamos as resenhas:

Dunkirk (2017)
Dirigido por Christopher Nolan



É engraçado ler meu artigo sobre a carreira de Christopher Nolan lá em 2014 quando Interestelar foi lançado, era o inicio do blog, com um autor bem mais inexperiente e exageradamente otimista, tem coisas bem pretensiosas e que já não me identifico mais escritas lá, mas é um bom lembrete de como eu amadureci durante esse anos.

Minhas opiniões sobre alguns filmes mudaram bastante, A Origem era meu filme favorito dele até então, mas hoje em dia mudei para O Grande Truque, após analisar mais objetivamente, o filme dos mágicos parece bem melhor construído, com uma mensagem que me toca muito mais que o filme dos sonhos.

Minha opinião sobre Interestelar continua a mesma, é um filme decente, não é tão maravilhoso quanto alguns dizem e não chega nem perto de ser tão ruim quanto outros apontam, é bem dirigido, atuado e escrito pela maior parte, mas tem erros bem visíveis e não tão fáceis de ignorar.

Agora com Dunkirk, Nolan mostra o filme mais diferente de sua carreira, sem plot twists, quase nada de exposição, apenas um espetáculo de imagem e som sobre um dos momentos mais tensos da Segunda Guerra Mundial, e sinceramente, eu não gostei tanto quanto eu gostaria.

Tecnicamente falando, Dunkirk é ótimo, e irá definitivamente apanhar alguns prêmios Oscar esse ano, a direção é espetacular, o som e efeitos visuais (na maioria práticos) são alguns dos melhores que já vi, as atuações são decentes, com veteranos como Mark Rylance e Kenneth Brannagh e novatos como Fionn Whitehead e Harry Stiles sendo sutis e expressivos ao mesmo tempo, mas eu quase não me senti apegado ao filme. É um ótimo exercício em tensão e suspense, mas a única parte que me emocionou foi o final.

A trilha sonora de Hans Zimmer é bem efetiva e foi feita sob medida para o filme, sendo bem tensa e tendo um enorme senso de urgência, mas é bem comum em comparação com outras trilhas do compositor.


A narrativa não-linear não fez muito sentido pra mim, até parece que a edição é confusa apenas pra ser, eu ouvi argumentos dizendo que era para o espectador se sentir tão desnorteado quanto os personagens do filme, mas acho que não era realmente necessário, mesmo que fosse em ordem, as revelações da história continuariam as mesmas, não é como em Amnésia onde faz todo sentido a trama ser fora de ordem.

Dunkirk é um filme centrado no evento, e não nos personagens por trás do acontecimento, me lembrou bastante de filmes como Gravidade e até mesmo Mad Max: Estrada da Fúria, mais pela questão de ter poucos diálogos e por maior parte da história ser contada através das cenas de ação.

Vendo por esse lado, eu provavelmente deveria gostar de Dunkirk, mas o filme simplesmente não me pegou. Eu ainda recomendo por ser um ótimo espetáculo visual e acredito que muitos irão amar o filme (como já estão), mas eu pessoalmente sai um pouco decepcionado do cinema.

Nota: 6,5/10




Em Ritmo de Fuga (2017)
Dirigido por Edgar Wright



Um filme bem diferente do resenhado acima, se Dunkirk é extremamente tenso, Em Ritmo de Fuga é extremamente divertido, o que já é de se esperar do diretor Egdar Wright, o mesmo de Chumbo Grosso e Scott Pilgrim Vs. O Mundo.

Na trama, Baby (Alsel Elgort) é um jovem motorista de fugas com um problema auditivo que o faz ouvir um zunido, então ele ouve música o tempo todo para abafar o zunido, ele se apaixona pela garçonete Debora (Lily James) e decide abandonar a vida criminosa, mas isso não será tão fácil quanto ele pensa, pois seu grupo tem planos diferentes pra ele.

O filme é quase um musical de certa forma, incorporando as batidas e letras da música com o cenário, nenhuma música está apenas jogada ali, todas elas fazem sentido no contexto, para dar alguns exemplos, há um cena onde Baby está caminhando até um lugar e a letra da música aparece pichada na parede, em outra cena acontece um tiroteio onde todos os tiros estão no ritmo da bateria, a direção e a edição são ótimas e usam esse estilo de formas bem criativas.

O elenco é muito bom, apesar de todos estarem fazendo papéis bem comuns de suas carreiras, Alsel Elgort é o protagonista bonitinho, Lily James é o par romântico, Kevin Spacey é o chefe criminoso, Jamie Foxx é um bandido maluco, Jon Hamm é um ex-empresário de Wall Street e Eiza Gónzalez é uma mexicana linda, ou seja, todos já fizeram esses papéis antes, o que dá certa naturalidade e familiaridade pro expectador.


As cenas de ação são muito boas (algo que o diretor já havia provado com Chumbo Grosso), usando muitas manobras reais nas perseguições, apesar de ser bem estiloso e exagerado, ele não chega no mesmo nível de exagero de um Velozes e Furiosos da vida, o que eu acho ótimo.

A trilha sonora é bem variada, raramente há um segundo de silêncio no filme, certamente vale a pena procurar todas as bandas e artistas que estão na trilha do filme, pois com algumas exceções, são canções bem obscuras, admito que reconheci poucas, minha favorita das que eu reconheci é Hocus Pocus da banda Focus, que toca em um momento bem climático do filme.


Algo que gostei foi que apesar de o roteiro não ter nada demais, era difícil prever para onde ele iria, tem muitos filmes em que dá para adivinhar toda a trama na metade, e esse tem reviravoltas inesperadas do meio pro final, essa imprevisibilidade foi um ponto bem positivo.

Os únicos pontos negativos é que o romance entre Baby e Debora é muito rápido, os dois atores tem química, mas há pouco desenvolvimento pra você acreditar que eles iriam seguir um ao outro independente do perigo, outro é que o roteiro pega muita coisa emprestada de outros filmes modernos, toda a parte de Baby ter fitas gravadas e um trauma de infância relacionado a mãe é muito semelhante a história de Starlord em Guardiões da Galáxia, e praticamente toda a plot é similar a de Drive, um garoto silencioso que é motorista de fugas e se apaixona por uma garçonete, e acaba envolvendo ela na vida de crime, é claro que o tom de ambos os filmes são bem diferentes (Drive é um suspense), mas as semelhanças são bem fortes.

Mas tirando isso, Em Ritmo de Fuga é estiloso, divertido e muito bem executado, apesar de não ser exatamente o novo clássico que alguns estão dizendo ser, ainda vale muito a pena assisti-lo.

Nota: 8/10




Planeta dos Macacos: A Guerra
Dirigido por Matt Reeves



Quando Planeta dos Macacos: A Origem foi anunciado anos atrás, pouquíssimos acreditavam que algo bom sairia (eu incluso), o marketing era bem duvidoso e tinha poucas expectativas para o filme, até que foi lançado e as criticas foram bem positivas, decidi assistir e gostei muito, mas ainda parecia faltar algo, aquela metáfora forte do filme original ainda não estava bem representada.

Então o segundo filme chegou em 2014, e foi melhor ainda, com uma mensagem mais forte e uma trama bem executada, mas ainda havia alguns problemas pequenos, e agora o terceiro filme da nova trilogia finalmente chegou aos cinemas, e como ele se sai em comparação aos anteriores?

Eu diria que Planeta dos Macacos: A Guerra é um dos melhores filmes que vi esse ano e teve um impacto muito forte em mim, algo que poucos fizeram esse ano em 2017 (Logan também está na lista).

Após o conflito do filme anterior, César e seu grupo são constantemente atacados por um exercito comandado por um coronel cruel, depois de algumas perdas fatais, César vai em busca de vingança contra os humanos, mas teme se tornar tão ruim quanto seus inimigos.

Vou começar já afirmando que esse é um dos blockbusters mais sombrios que já vi, apesar de ter a classificação 14 anos, eu não o recomendo para nenhuma criança, apesar de que foi hilário ver todas as crianças saindo traumatizadas da sessão.

O marketing do filme infelizmente não foi muito fiel ao material, o último Planeta dos Macacos não é exatamente um filme de ação, mas um drama de guerra, é praticamente um filme de holocausto, boa parte de sua duração se passa em um tipo de campo de concentração, então não vá assistir esperando uma batalha épica entre macacos e humanos, a guerra aqui se refere mais a miséria e destruição do que um combate direto.

Andy Serkis faz seu melhor trabalho como o símio líder César, e certamente deveria ser indicado a um Oscar de melhor ator, nem precisa fazer uma nova categoria para personagens digitais, o nível de expressão e drama do ator aqui já é suficiente para ser considerado em um dos prêmios principais.

É interessante ver a evolução do personagem até aqui, começando como um animal normal e lentamente ganhando consciência até chegar a figura messiânica adorada nos filmes antigos, Woody Harrelson também está ótimo como o vilão humano do filme, muito inspirado em General Kurtz de Apocalypse Now, seu personagem é odioso, mas é compreensível ao mesmo tempo.

A maior parte da trama é no ponto de vista dos macacos, o que eu achei ótimo, pois já desejava que o filme anterior fosse dessa forma, desde Westworld ano passado eu não via uma peça de ficção tão misantrópica desse jeito, e isso é um mega elogio.

Apesar disso, a trama não é tão maniqueísta quanto parece, fica claro durante a trilogia que ambos macacos e humanos podem ser bons e maus, mas no geral, os humanos são os vilões do filme, com exceção da personagem Nova, que é mostrada como uma representação da esperança, ela é naturalmente gentil e muito diferente do restante da humanidade.

Outro ponto positivo é a trilha sonora de Michael Giacchino, bem similar a trilha de Lost (que ele também compôs), as faixas são tristes, inspiradoras e emocionantes, e na minha opinião, também merecia uma indicação ao Oscar.




Minha única reclamação é que próximo do final, o filme tem algumas decisões de roteiro que achei um pouco preguiçosas, e as analogias são um pouco óbvias, só digamos que o vilão quer construir um muro e obriga os símios a fazer, não que eu discorde do ponto de vista do filme, mas eu queria algo um pouco mais sútil.

Mas isso é algo mínimo, Planeta dos Macacos: A Guerra é um ótimo filme que fecha a trilogia magistralmente, até então é meu filme favorito do ano, só se prepare para levar alguns lenços para o caso de você chorar, o que vai ser bem provável.

Nota: 10/10











quarta-feira, 1 de março de 2017

O quê faz Desventuras em Série ser tão bom?



Olá, pessoal!

Essa postagem talvez seja terrível demais para ser lida, pois a vida dos órfãos Baudelaire é indiscutivelmente (a palavra aqui significando que não há margens para discussão) bem difícil, sugiro que aqueles que queiram manter-se felizes pelo resto do dia procurem blogs mais agradáveis, talvez algum com fotos de filhotes fofos, ou aqueles de poesia com mensagens bonitas e inspiradoras.

Mas se você por qualquer razão resolveu continuar aqui, deve-se questionar o porquê de querer ver tamanhas desgraças, suponho (a palavra aqui significando que não tenho certeza sobre sua personalidade mas irei arriscar) que talvez você se identifique com as desventuras dos órfãos, ou pelo menos com sua forma de ver o mundo.

Mas deixando isso de lado, eu sei muito bem que não sou nenhum Lemony Snicket, e seria deveras ridículo tentar replicar seu estilo por todo o artigo. Voltarei ao normal e irei analisar os quatro primeiros livros, o filme de 2004 e a série recente da Netflix.

Nessa análise, eu explicarei o apelo de Desventuras em Série, porque é tão bom? como suas histórias afetam nossa forma de ver a vida?

Meu primeiro contato com a história foi o filme de 2004 estrelado por Jim Carrey, e era provavelmente um dos meus filmes favoritos da infância, isso não significa que ele não seja problemático, ele é e muito.



A maioria dos fãs dos livros odeiam essa adaptação por ter compactado três livros inteiros em um filme com menos de duas horas, e por ter "emburrecido" muito do humor sarcástico dos livros.

Pessoalmente, eu ainda gosto do filme, admitidamente mais por nostalgia, porque apesar dessas reclamações serem verdade, o clima gótico dos livros ainda transparece muito bem na adaptação, e foi meu primeiro contato com humor negro (acredito que de muitos, tanto os que conhecem o livro quanto os que viram o filme).

Personagens morrem em Desventuras em Série, e muitas vezes é engraçado, o próprio pessimismo exagerado presente nos livros é feito como piada.  Ainda mais para crianças, tão acostumadas a histórias coloridas e felizes, ler ou assistir Desventuras era algo único, e desde jovem eu adorava essa parte sombria que me foi mostrada, porque ninguém mais parecia ter coragem de mostrar.

O filme começa de forma genial, como se fosse uma animação dos anos 60, só para na metade cortar e vir a voz do narrador falando: "Lamento informar que este não é o filme que assistiremos...".



Quando vi aqueles primeiros minutos, pensei que havia alugado o filme errado ou que alguém tinha colocado outro dvd dentro da caixa (era época de locadora), e o mais engraçado é que recentemente (mas ainda antes da série) mostrei o filme para minha irmã e ela perguntou se eu havia colocado o filme errado.

Se Jim Carrey fez um bom trabalho como Conde Olaf é discutível, eu pessoalmente gostei bastante, e Carrey já provou que além de comédias ele é muito bom em dramas como Show de Truman e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, mas é bem visível que ele simplesmente fez um "Ace Ventura do mal" no filme, o humor físico e exagerado comum dele não é exatamente fiel ao Olaf do livro.

As três crianças foram ótimas, principalmente Emily Browning como Violet, tanto que na série contrataram uma atriz bem parecida com ela.



Um aspecto do qual o filme é superior a série é a trilha sonora (indicada ao Oscar) de Thomas Newman (de Beleza Americana), não que a trilha da série seja ruim, mas a do filme captura o clima de mistério muito melhor que o produto da Netflix.



Eu especialmente adoro o final, onde os órfãos voltam para a casa queimada e recebem uma carta dos pais mortos, mas comentarei apenas no final do artigo, pois essa é exatamente a cena que define Desventuras em Série para mim.

Apesar da má recepção dos fãs e do público (foi um fracasso de bilheteria), o filme ainda foi indicado a quatro prêmios Oscar (todos técnicos) e ganhou por melhor maquiagem, e de certa forma se tornou cult depois de um tempo, afinal fez parte da infância de muitos.

Descobri anos depois que o filme era baseado numa longa série de livros (13 ao total), mas nunca consegui encontra-los em lugar nenhum, a biblioteca da escola não tinha e depois de um tempo eu me esqueci da existência deles, foi apenas nesse ano com a estreia da série da Netflix que resolvi procurar na biblioteca pública da minha cidade, e felizmente achei toda a coleção lá.



Já começo dizendo que eu amo a escrita de Lemony Snicket, é puro sarcasmo e humor negro, foi uma das poucas vezes onde eu realmente ri com um livro, tem incontáveis passagens geniais que eu poderia colocar aqui, e olha que li apenas os primeiros quatro livros.

Alias, antes que se perguntem, Lemony Snicket é apenas um pseudônimo, pois o próprio é um personagem do livro que narra as histórias dos órfãos e tem ligação com eles, o verdadeiro nome do autor é Daniel Handler.

Assim como Harry Potter, me parece uma obra perfeita para fazer as crianças se interessarem por literatura, pois é tudo bem dinâmico e fácil de entender, é claro que tem partes consideravelmente pesadas (como havia dito, pessoas morrem de forma cômica), mas ainda é em sua essência um livro infanto-juvenil.

Pessoalmente, meu favorito dos quatro é "O Lago das Sanguessugas", eu acho as piadas sobre gramática e as fobias da Tia Josephine bem legais, além do cenário (a casa suspensa) e as situações são as mais interessantes, esse também era meu segmento favorito no filme. 

Posso dizer que a série é um exemplo de como fazer uma adaptação, muitos diálogos e passagens do livro são transportadas palavra por palavra na série, e não contente só com isso, também são adicionadas varias informações sobre as futuras adaptações e mais momentos cômicos.

Até mesmo a abertura é bem irônica, dizendo que é melhor não assistir, algo que é bem possível de imaginar vindo do próprio Daniel Handler, isso porque ele teve uma voz bem mais ativa nessa produção, tudo até mesmo as minúsculas mudanças foram aprovadas por ele.


Todos os atores fizeram um ótimo trabalho, os três órfãos seguem exatamente a descrição dos livros, por exemplo, é dito que Klaus é praticamente cego sem os óculos e que Violet só prende o cabelo para pensar em fazer alguma invenção.

No filme, Klaus só usa os óculos quando lê e Violet passa metade do filme com o cabelo amarrado por alguma razão.

Achei que Neil Patrick Harris fez muito mais justiça ao personagem, pois o Conde Olaf dos livros certamente é imbecil e repugnante, mas ao mesmo tempo é divertido ver seus planos diabólicos para pegar a fortuna dos órfãos. Harris sabe quando ser idiota e quando ser assustador, pois apesar de Olaf ser um pateta, ele ainda é perigoso e está totalmente disposto a matar para atingir seus objetivos.



Patrick Warburton também está ótimo como Lemony Snicket, dessa vez com uma presença bem mais forte do que no filme, sua voz e estilo de comédia combinam perfeitamente com o personagem original.

Alguns personagens que roubaram o show foram os capangas do Conde Olaf, tendo tempo e personalidades até mesmo superiores ao livro, destaque para as irmãs gêmeas que estão em alguns dos momentos mais engraçados da série.



Outro fator é que teve um plot twist bem interessante próximo ao final, apesar de que os fãs dos livros provavelmente já sacaram o que aconteceria, muitos ainda foram pegos de surpresa com aquela revelação, foi certamente bem surpreendente e triste.

É difícil apontar alguns fatores negativos nessa adaptação (ainda mais por ser fã), a série é exatamente tudo que ela deveria ser, e até o momento certamente é minha favorita do ano, o único problema que notei foram alguns efeitos especiais ruins, mas até mesmo isso tem um certo charme e combina com seu estilo cartunesco.

Também por já assistir o filme mais de 20 vezes, eu já sabia o que aconteceria nos seis primeiros episódios, o único que foi uma surpresa para mim foram os últimos dois, que adaptam o livro "A Serraria Baixo Astral", do qual o filme deixou de lado. Mas isso é minha culpa e não da série.

Eu recomendo 100% a série para todos que leram os livros e viram o filme, ou se você gosta desse tipo de história sombria com humor negro e estilo gótico.

E agora, por que Desventuras em Série é tão bom?

Antes de começar, devo dizer que esse tema está se tornando um clichê neste blog, e sim, é mais uma repetição do discurso do Rocky Balboa, mas o que eu posso fazer se essa é mais pura verdade e nunca fui refutado até agora?

A razão de Desventuras em Série ser tão bom é que desde cedo mostra que o mundo não é um lugar bonito e justo, nem sempre os bons vencem, alias, na maioria das vezes, eles perdem. Os órfãos sofrem e a situação deles sempre piora, mas eles continuam lutando contra as adversidades, se mantendo unidos contra todo inevitável encontro com Conde Olaf, e eles nunca desistem.


Existem poucos minutos de felicidade na vida deles, mas isso já o suficiente para eles ainda manterem as esperanças. É exatamente o que é mostrado no final do filme, onde eles recebem uma carta dos falecidos pais dizendo uma mensagem bem semelhante.



"... e o que parece uma série de desventuras pode ser de fato apenas o inicio de uma jornada..." 

A imagem dos três gêmeos dormindo juntos atrás do carro é o que define Desventuras em Série para mim, não importa o que venha pela frente desde que eles tenham um ou outro.

Por isso o filme sempre vai ter um lugar na minha memória, e até mesmo a série fez algo similar com um número musical no final reforçando que não há um final feliz aqui, mas pelo menos eles estão unidos.

"... você pode sonhar que a justiça e paz ganharam o dia, mas não é assim que história continua..."

Alias, para acabar, desejo um bom carnaval para todos, pelo menos até essa distração acabar e você lembrar que o resto do seu ano será miserável como todos os outros.

Com isso dito, Paz!




sábado, 11 de fevereiro de 2017

Meus Filmes Favoritos: "Filhos da Esperança" e seu futuro profético


Uma obra prima absoluta

O ano de 2006 foi importantíssimo para mim, eu tinha 10 anos e fui separado de todos os meus amigos da 3ª série (eu mudei para outro horário, enquanto eles continuaram no mesmo), o que me deixou bem solitário, mas em contrapartida esses momentos sozinhos foram preenchidos por filmes, livros e games.


Eu gostava de cinema, mas não ao ponto de me considerar um amante de cinema (como eu poderia? eu só tinha 10 anos), com essa atenção mais voltada às artes, eu assisti alguns filmes que moldaram meu gosto cinematográfico (e provavelmente meu caráter) como 007: Cassino Royale (uma escolha estranha eu sei, mas ainda um ótimo filme do seu jeito), O Grande Truque e principalmente Filhos da Esperança.


É claro que minha mente infantil dificilmente entendia esses filmes completamente, mas eu adorava assisti-los mesmo assim, pois eles pareciam mais adultos e inteligentes do que estava acostumado. Eu gostava de Filhos da Esperança porque ele parecia real, as imagens não lembravam ficção ou fantasia, mas um noticiário.


Mesmo criança, isso parecia bem evidente.


Assistindo hoje, minha admiração por esse filme só cresce, mas assim como Corpo Fechado, me parece ser um filme lançado na época errada, o futuro de Filhos da Esperança é mais real agora do que nunca.




O diretor mexicano Alfonso Cuarón até então havia dirigido o aclamado "E Sua Mãe Também" e com isso foi chamado para dirigir um "pequeno" filme chamado "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban", o que é bem irônico, considerando o alto teor adulto/sexual de seu filme antecessor.


O Prisioneiro de Azkaban é a adaptação favorita de muitos fãs da saga, e isso se deve muito ao diretor, que é indiscutivelmente o melhor que já passou pelos filmes do personagem.

Com o enorme sucesso do terceiro filme do bruxo, Cuarón teve uma boa grana para dirigir seu próximo filme, baseado no livro da falecida autora P.D. James.

Mas antes de começar, devo dizer que apesar de não gostar de falar sobre política neste blog, é praticamente impossível não comentar nada a respeito quando se trata desse filme.



Filhos da Esperança fala sobre um futuro recente (2027) onde todas as mulheres se tornam estéreis (contrário ao livro onde são os homens), e com isso a humanidade está próxima da extinção, houveram várias guerras e boa parte do mundo está em completo caos, com exceção da Grã-Bretanha, apesar de ainda sofrer diversos ataques.

Nesse mundo se encontra Theo (Clive Owen em sua melhor atuação), um ex-ativista desiludido que aceita transportar uma mulher que ficou misteriosamente grávida até um lugar seguro.

A mulher grávida em questão está com um grupo rebelde comandado pela ex-mulher de Theo chamada Julian (Julianne Moore) e seu sócio Luke (Chiwetel Ejiofor), inicialmente Theo está bem relutante em fazer um acordo, mas acontece algo que o faz mudar de ideia.

Uma coisa que gosto no filme é que não existe realmente um lado certo, o governo não é completamente mal e os rebeldes não são completamente bons, todos os personagens tem morais questionáveis, pode se dizer que o único vilão é a situação em que todos se encontram.



Nesse futuro o governo britânico aderiu rigorosas lei anti-imigração, fechando suas fronteiras e deixando apenas quem já estava ali, isso de certa forma até funciona , pois a Inglaterra é um dos únicos lugares onde ainda tem certa ordem, mas ao mesmo tempo isso cria condições desumanas para todo o resto.

Com isso se formam os grupos rebeldes que querem abrir as fronteiras, mas eles estão bem longe de serem heróis, e muitos dos revolucionários estão completamente dispostos a sacrificar vidas inocentes para fazer o que eles acham correto.

Eu gosto dessa ideia, o filme não toma lados porque seria fácil demais demonizar um lado e abraçar o outro, você entende ambos os posicionamentos.

O futuro de Filhos da Esperança não é mega tecnológico, para falar a verdade, ele é como se o mundo tivesse congelado em 2006 e continuasse até 2027, essa falta de esperança está integrada na vida de todos os personagens e de todo o seu cenário.



Acredito que o que escrevi até agora seja o suficiente para convencer quem não assistiu o filme a assistir, pois de agora em diante eu comentarei vários spoilers (basicamente um resumo inteiro do filme) inclusive o final.

Spoilers pesados até o final do artigo a seguir.

O filme já começa chocante, onde o personagem principal chega a uma cafeteria, assiste o noticiário sobre a morte da pessoa mais jovem do mundo, e ao sair o lugar explode, você vê uma mulher segurando o próprio braço arrancado e o titulo do filme aparece, o som da explosão dura uns dois minutos.




Essa é uma forma fenomenal de começar, pois você já sabe que tipo de mundo é o de Filhos da Esperança, ainda mais ao ver que Theo está bem indiferente após isso acontecer, pra ele é mais um dia normal na Londres futurista.

Depois disso ele visita seu amigo Jasper (Michael Caine), um personagem bem descontraído e divertido, o que cria um contraste com Theo, que parece bem desmotivado, você vê que existem formas diferentes de ver o mundo, Jasper ainda é consideravelmente feliz, talvez por ter se isolado da sociedade com sua esposa numa casa na floresta.



Theo é sequestrado por um grupo rebelde (chamado de Os Peixes) do qual fizera parte no passado, comandado por sua ex-esposa Julian (Julianne Moore), ele é convocado para conseguir passaportes para alguns imigrantes com um amigo dele no governo.





Essa cena onde ele fala com o amigo no governo é bem interessante, pois ele está no Ministério de Arte e Cultura, chamado "A Arca das Artes" como a civilização está em colapso, eles reuniram várias obras de arte pelo mundo em um local só.

Existem várias referências a obras de arte no local e muitas delas têm paralelos com a história do filme, por exemplo, no fundo do cenário há uma recriação da capa do álbum "Animals" do Pink Floyd, o disco em questão é uma homenagem ao livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell, conhecido por fazer histórias de governos autoritários, exatamente como o do filme.





Atrás de Theo está a pintura "Guernica" de Picasso, que retrata um ataque durante a Guerra Civil Espanhola, da forma bem abstrata que Picasso é conhecido por fazer (cubismo).





Theo consegue os passaportes e se encontra com Julian e duas imigrantes, uma senhora pagando de rebelde chamada Miriam (Pam Ferris) e uma jovem negra chamada Kee (Clare-Hope Ashitey).



Aparentemente tudo parece estar indo bem, até que eles são atacados por uma multidão, essa é uma sequência eletrizante e genial filmada sem cortes, muito antes de esse tipo de cena ser comum.



Julian leva um tiro no pescoço, o que é bem inesperado, pois Julianne Moore é uma atriz bem famosa e seu nome até está no poster do filme, ela morre em menos de 30 minutos de duração.

Depois desse momento, tem uma cena bem pequena que eu gosto muito, onde Theo se afasta do corpo pela floresta e começa a chorar, você vê que ele não quer que os outros o vejam daquele jeito e que ele é extremamente fechado, até mesmo após a morte de sua ex-mulher, também prova que Clive Owen pode ser um ótimo ator com o diretor certo.



Theo e as imigrantes se juntam na base dos rebeldes, ele descobre que Kee está milagrosamente grávida, numa cena de referências bíblicas, a revelação é feita dentro de um celeiro.




Durante a noite ele também descobre que foi Luke quem planejou a morte de Julian, para poder tomar a liderança da oposição, pois ela queria uma solução pacífica e ele quer uma guerra.

Eu gosto disso pois é bem comum na história da humanidade alguns lideres serem traídos por parecerem "fracos"  e serem substituídos por alguns babacas que provavelmente vão ferrar com tudo.

Então Theo foge dos rebeldes com Miriam e Kee para encontrar um barco chamado Amanhã, onde é dito ser seguro e com cientistas para estudar a gravidez dela.



Eles chegam até a casa de Jasper e passam um bom tempo lá, onde você conhece melhor os personagens, você vê que apesar de ser a última esperança da humanidade, Kee é uma adolescente bem comum, até um tanto idiota (como todo adolescente), e que Theo uma vez fora um forte ativista, mas que perdeu a fé ao ver que os rebeldes não eram tão diferentes do governo, também é revelado que ele e Julian tiveram um filho (chamado Dylan), mas houve uma epidemia que levou a criança.

Eventualmente eles são descobertos pelos rebeldes e conseguem fugir a tempo, mas infelizmente Jasper é assassinado numa cena de quebrar o coração, ainda mais ao você ver que ele manteve o otimismo até o fim, chegando a fazer uma piada enquanto morre.



Antes de morrer, Jasper diz que Theo deve falar com um amigo militar dele, que o levará até uma cidade portuária onde ele pode encontrar o Amanhã. No meio do caminho, ele e as imigrantes param numa creche abandonada e refletem sobre o mundo sem crianças, ao ver que os animais e a natureza estão tomando conta do mundo novamente.

Miriam diz que "Com o som das crianças brincando desaparecendo, o desespero se instalou".

Eles encontram o militar, que os coloca em um ônibus de deportação, nessa cena você vê a forma brutal como o governo trata essas pessoas, com direito a imigrantes em jaulas e algumas execuções em público.

Kee começa a ter contusões durante uma revista no ônibus, Miriam intervem para protege-la e é presa pelos militares.





Agora Theo e Kee andam por uma cidade devastada pela guerra e encontram uma cigana chamada Marischka, que os leva a um apartamento fechado, lá Theo faz o parto em Kee e o bebê finalmente nasce.



Essa provavelmente é a melhor cena de parto que já vi num filme, é tudo bem realista, é bem comum em filmes o bebê vir completamente limpo, mas aqui você vê o sangue e a dor que Kee está passando, é uma cena pesada mas linda ao mesmo tempo.

Após o nascimento do bebê (uma menina), o militar e Marichka vão até o quarto, o militar viu que eles estavam sendo procurados e decide entrega-los a justiça, mesmo após ver o bebê, mas Theo aproveita uma brecha para poder fugir.

Enquanto eles fogem do militar, está acontecendo uma batalha na cidade, e novamente temos um plano-sequência ainda melhor que o primeiro, desta vez seguindo os personagens enquanto a cidade é destruída na guerra entre os rebeldes e o governo.



 Uma curiosidade bem interessante é que essa cena levou 14 dias para ser filmada, pois toda vez que algo dava errado eles tinham que reconstruir todo o cenário, ela finalmente conseguiu ser rodada sem nenhum corte no último dia, e o diretor quase arruinou a cena porque gritou o famoso "corta", mas por uma sorte divina o grito dele coincidiu com uma das explosões e não pode ser ouvida.

Outra referência é a mulher segurando o filho morto na rua, essa cena foi inspirada na fotografia "Kosovo Pieta" de Georges Merillon, a foto em si (que é real) é assustadoramente semelhante a escultura "Pietà" de Michelangelo, que é mencionada anteriormente na cena da Arca das Artes.








O que se segue depois é uma da cenas mais significativas do cinema moderno, os soldados e os rebeldes veem o bebê e por alguns minutos cessam fogo, apenas observando fascinados a primeira criança em anos.



Até que eventualmente começam a se matar novamente, Theo e Kee fogem e finalmente chegam ao porto, onde pegam um bote e começam a remar em direção ao mar, mas infelizmente Theo aparenta ter levado um tiro durante a guerra e começa a sangrar fortemente.





Theo diz para Kee manter o bebê sempre por perto, ela diz que a dará o nome de Dylan (o mesmo nome do filho falecido dele, por ser um nome unissex), ele então fecha os olhos e morre.

Kee se encontra sozinha e desesperada por um tempo, mas no fundo da neblina o Amanhã surge.







O filme termina magistralmente com o som de crianças brincando.



Eu amo Filhos da Esperança (se já não parecesse óbvio), é um filme que assisto todos os anos da minha vida e a cada ano eu gosto ainda mais. É meu filme de ficção cientifica favorito, pois ele é milhares de coisas ao mesmo tempo, é um ótimo drama, uma ótima ficção, um ótimo filme de ação, eu o considero perfeito.

Tenham em consciência que eu vi a primeira vez quando tinha 10 anos, não era algo que eu entendia, mas eu conseguia ver sua beleza , e a cada ano era como redescobrir um filme novo, ora, tem coisas que só notei dessa vez, mesmo tendo assistido incontáveis vezes.

Não é um filme extremamente conhecido, mas é possível ver que ele inspirou muitas obras depois, uma bem clara é o famoso jogo de PS3 "The Last of Us", as semelhanças são muitas, o personagem Joel é bem parecido com Theo, tanto em personalidade quanto aparência.


A história inteira na verdade, onde ele (Joel) precisa levar uma jovem (Ellie) que pode ser a salvação desse mundo apocalíptico, sua parceira Tess (que também é bem semelhante à atriz Julianne Moore) morre bem cedo, e ele é caçado tanto pelo governo quanto os rebeldes (os Vaga-Lumes), a única diferença é que The Last of Us tem zumbis como razão do colapso da sociedade, enquanto Filhos da Esperança é a esterilidade.



Hoje em dia ele é mais importante do que nunca, a comparação com as fronteiras se fechando é bem óbvia e prefiro não discuti-la, só direi que ironicamente o diretor desse filme é mexicano, mas veja as cenas de guerra do filme e compare com as cenas reais da guerra na Síria, é assustadoramente atual.

Por isso muitos dizem que Filhos da Esperança é um filme profético, lembre-se que o vírus da Zika fazem os bebês nascerem com microcefalia, o que é bem similar com a doença de esterilidade do filme.

O pior é que nem precisemos esperar até 2027, parece que o futuro do filme veio 10 anos antes.